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News — 28 May, 2024

Mapeando a Cultura Andina: Uma Jornada Através do Linderaje em Cusco

As pessoas docentes da GAL School em Cusco, Peru, utilizam ferramentas de mapeamento aberto para documentar e preservar tradições como o linderaje, fundindo tecnologia com práticas ancestrais. Através do programa Open Mapping for All, docentes e estudantes empregam tecnologias de empoderamento e participação, fortalecendo assim a educação e a identidade comunitária.

Em Cusco, Peru, a antiga prática do linderaje remonta a tempos ancestrais e tem raízes profundas na cultura andina. Essa tradição persiste até hoje, onde as comunidades se reúnem para realizar rituais simbólicos e cerimônias que não apenas marcam os limites territoriais, mas também reforçam significativamente os laços sociais e culturais.

Nossa história se desenrola nesse contexto cultural enriquecido. A rica tradição andina converge com o entusiasmo dos professores da GAL School, que aprenderam a integrar ferramentas de mapeamento aberto na educação através do nosso programa Open Mapping for All (OM4A).

Por meio de seu currículo, professores como Gilmar Vergara, professor de ciência e tecnologia, Rosemarie Serrano, professora de disciplinas como Quechua e Interculturalidade, e Paola Araujo, psicóloga educacional, apostam no mapeamento com impacto social para documentar, através de treinamentos personalizados e ferramentas, a colaboração e o respeito pelos limites territoriais — valores que têm sido fundamentais na cultura peruana ao longo dos séculos.

Integrando o Mapeamento Aberto na Cultura Andina

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Através do mapeamento, nos aprofundamos no fascinante mundo do linderaje, uma tradição onde duas comunidades se encontram em uma espécie de fronteira e celebram juntas o estabelecimento dos limites de seus respectivos territórios. O interessante dessa prática é que vai além da demarcação de territórios; envolve um processo em que as comunidades incorporam danças e refeições compartilhadas, fortalecendo os laços sociais e culturais.

Paola Araujo, psicóloga e professora, acompanha alunos dos níveis inicial, primário e secundário, focando em seu desenvolvimento integral. Especificamente com alunos do ensino médio, ela se dedica à incorporação de ferramentas de mapeamento aberto em várias áreas acadêmicas. Em 2019, ela se capacitou com a equipe do Humanitarian OpenStreetMap Team (HOT) para escolher as ferramentas mais adequadas para diferentes projetos de mapeamento.

Os professores compartilham que na escola se emprega uma metodologia de ensino ativa que promove o pensamento crítico, aprendizagens contextuais e experiências experimentais dos alunos. Portanto, a rica tradição cultural de Cusco tem sido aproveitada para enriquecer as experiências educacionais diretamente no campo.

Vivenciando o Linderaje em Chinchero, Cusco

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Na perspectiva cusquenha, Gilmar Vergara, professor da disciplina de Ciência e Tecnologia, destaca o linderaje como uma tradição profundamente enraizada e autêntica na cultura andina. Surge com o propósito de estabelecer limites territoriais em um ambiente de paz e harmonia, tornando-se uma oportunidade durante as festividades de carnaval; o qual se destaca como uma manifestação de identidade cultural e social nas comunidades rurais do Peru.

Nesse contexto, foi selecionada uma turma do ensino médio para integrar competências e desempenhos de vários cursos, incluindo cidadania, estudos sociais e quechua. Esses cursos enfatizam o idioma e os costumes locais, fundamentais para compreender e valorizar a cultura das comunidades.

No linderaje de Chincheros, participaram 18 alunos. Eles chegaram um dia antes para se aclimatarem, pois dormiram a 3800 metros de altitude. Naquele dia, realizaram um teste noturno com ferramentas digitais como OSMTracker, Relieve e uMap, garantindo sua funcionalidade para a jornada.

No dia do linderaje, apesar de se esperar um percurso leve pela área baixa de Chincheros, o trajeto foi mais exigente, incluindo subidas e descidas por morros, o que foi um desafio para todos os participantes, especialmente para os alunos de aproximadamente quinze anos.

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Paola explica que a tradição exige que, antes de começar o linderaje, os participantes acompanhem as casas das lideranças importantes da comunidade para receber bênçãos, comida e bebida, um gesto de hospitalidade e respeito. Esse ritual se repete em várias casas antes de convergir em um ponto central onde a tradição oficialmente começa. Durante a caminhada, são feitas paradas estratégicas para rezar e colocar bandeiras que marcam o progresso.

Durante a festividade, as comunidades celebram a vida e reforçam os limites territoriais, fortalecendo os laços sociais sob a liderança de autoridades tradicionais. As wifalas, conhecidas como danças com bandeiras brancas, adicionam vitalidade ao ritual, marcando o território de maneira pacífica com símbolos como a bandeira branca. Os líderes comunitários preparam os jovens para papéis de liderança, gerando um vínculo comunitário baseado no respeito e na colaboração.

Implementando ferramentas de mapeamento aberto no linderaje

Os alunos usaram várias ferramentas digitais para documentar a experiência, garantindo que cada aspecto do linderaje fosse capturado e que pudessem coletar todos os dados assim que retornassem a Cusco. Durante o exercício, utilizaram ferramentas para traçar o percurso, tirar fotos e marcar pontos geográficos.

Entre as ferramentas utilizadas, destacam-se:

  • Organic Maps: foi usada para coletar rastros de GPS precisos antes do linderaje.

  • OSM Tracker: permitiu adicionar fotos, vídeos e notas em cada ponto do percurso.

  • AllTrails: utilizado para navegação e oferecendo diferentes opções de documentação visual.

  • uMap e Relive: facilitaram a criação de relatos visuais combinando rastros com fotos e vídeos.

Paola conclui que o maior impacto das aplicações de mapeamento aberto é sua capacidade de organizar eficientemente as informações que os alunos coletam. Essas ferramentas digitais facilitam a captura de fotos, gravação de vídeos e registro automático de rotas, otimizando a organização e coleta de dados durante as atividades educacionais. Este aspecto tem sido particularmente impactante e impressionante para os alunos.

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Mapa dos percursos realizados por alunos da GAL School elaborado por Gilmar Vergara no uMap.

Reflexões sobre a Aprendizagem para Alunos

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Mery destaca que após a experiência, os alunos compreendem melhor como as competências da disciplina Cultura Andina e Quechua se concentram na valorização da cultura e na expressão oral. Eles observaram como uma cultura enraizada na tradição oral se organiza de maneira eficaz, dispensando a documentação escrita exigida pelas leis e constituição peruana. Trata-se de reconhecer e transmitir a palavra de maneira comunitária. Além disso, os alunos enfrentaram o desafio de aplicar seus conhecimentos de quechua ao interagir com falantes nativos, fortalecendo assim sua competência oral no idioma.

Quando perguntados sobre as observações dos alunos, sobre por que viver essa experiência de linderaje se já existem mapas, Mery responde que sim, surgiram debates na sala de aula sobre esse tema.

No início do projeto no ano passado, muitos deles consideravam essa prática como algo obsoleto na era moderna, dado que agora contamos com tecnologia avançada para abordar questões geográficas ou regulá-las por meio de leis. No entanto, ao participar da atividade, perceberam a importância dessa tradição, pois lhes permitiu percorrer e reconhecer o território e sentir-se parte integrante dele.

Embora o território pertença à comunidade como um todo, os alunos sentem que, por meio desse exercício, cada parte dela também lhes pertence.

Essa experiência imersiva e desafiadora não apenas permitiu aos alunos usar várias ferramentas para uma aprendizagem prática, mas também fortaleceu sua conexão com o patrimônio cultural e comunitário.

As ferramentas de mapeamento, embora úteis para visualizar e compartilhar informações sobre os limites e precisar marcos, não substituem a tradição do linderaje entre as comunidades andinas. Nesse contexto, a tecnologia atua como um complemento à rica cultura, que continua sendo a protagonista. Os alunos que participaram do projeto educativo vivenciaram o mapeamento em campo, envolvendo-se diretamente em um costume ancestral, o que constituiu uma experiência educativa única e profundamente significativa.